sábado, 13 de março de 2010

Somos diferentes?

Vim de uma realidade que muitas vezes dependi dos outros até para comer, minha infância pobre me colocou em condições de miserabilidade,quando faltava as coisas em casa, saíamos pedindo nos vizinhos ou saíamos catando latas, vidros, papelão, etc... Sabe, quando se é criança não temos vergonha de nada. Somos influenciados pelas pessoas ou pela condição de sobrevivência, não sei como acontecia estas situações por que meu pai sempre trabalhou, talvez a grana não desse para toda a manutenção da família. Mas pô, faltar o básico é triste! Aos 13 anos de idade já era um guri ligeiro no mundo, andava por várias quebradas, não tinha medo de nada, me lembro que ia para minha tia e lá gostava de ficar, tinha meus primos que eram mais velhos e aprendi as malandragens com eles, me lembro que consegui meu 1º emprego de vendedor de picolés com um dono de uma lancheria que era amigo de meu tio. Então, vendia picolés por toda Alvorada, eram vários quilômetros percorridos a pé com uma caixa de isopor carregada com mais ou menos 20 quilos. Isso para um muleque era puxado, mas mesmo assim seguia na peleia atrás de um dinheirinho, e me virava pra ajudar minha família; eu o mais velho de 4 irmãos tinha que fazer os corres. Eu gostava, por que além de ganhar meu troco, podia conhecer as vilas. Era perigoso, algumas vezes fui assaltado e tinha que usar a corneta pra me defender e, às vezes, correr e deixar a caixa de picolé para trás. Meus corres começaram cedo e sempre fui de movimento. Meu coroa sempre teve em casa brique e conserto de alguma coisa. Eu sempre metido no meio e, assim, me virava daqui e dali pra arranjar um cascaio. Sabe como é a vida de muleque de vila! E uma coisa que herdei de meu pai, foi o lance de improvisar e catar as coisas na rua. Meu veio sempre que via algo quando passávamos em algum lugar, se estivesse de carro parava e juntava, pois, para ele alguma hora poderia ter uma serventia fosse um parafuso, uma tampa de panela, um guarda-chuva quebrado o que fosse ele catava até porque ele era meio professor pardal, consertava bike, guarda-chuva, panela de pressão, geladeira.
Vocês devem estar se perguntando porque estou relembrando tudo isso? A parada é a seguinte, uma coisa que tenho comigo é a valorização do ser humano, pois como vocês sabem já passei poucas e boas na vida, e uma coisa que valorizo muito são as pessoas, sou solidário e não gosto de injustiças, já passei fome, já dormi na rua, já fui marginalizado e por isso é natural e cultural o jeito que sou. Valorizo muito um pedaço de pão, um prato de comida, um agasalho, me sensibilizo com os menos favorecidos e sempre que posso ajudo meu semelhante. Aqui onde moro é rodeado por moradores de rua , catadores e muitos são da comunidade vizinha, sempre que sobra algo de comida coloco em um potinho e deixo na janela de casa ou saio na rua para alcançar para alguém. Ontem, quando estava fazendo isso, encontrei um rapaz chamado Silvio Henrique, que ao me ver em frente ao prédio com o pote na mão se dirigiu a mim e disse: Isto ai é comida ? Eu respondi sim, e começamos a conversar e ele muito simples me disse, “bem certinho posso levar amanhã de vianda, por que to sem comida em casa”. Aí ele me contou que veio de São Borja , que tem uma filha que fica com a mãe, e que agora ele está feliz porque conseguiu o 1º emprego de servente de obras, que comprou uma casa de 100 reais na vila Chocolatão, e, assim, poderá dar uma vida melhor para sua família. Estava pedindo alguma roupa para poder ir trabalhar, pois só tinha a que estava no corpo e outra muda para ir para o trabalho. Então, parei, pensei, conversei mais um pouco, e após alcançar o potinho de comida, refleti sobre minha vida. Ao entrar em casa agradeci ao meu Deus por tudo o que sou hoje!

5 comentários:

Letícia Nunes disse...

Tah valendo muitooo a pena encher esse post de comentários!
Graças a Deus existem pessoas como vc! Sabe pq?
É muito fácil falar horas, filosofar bonito e teorizar muito sobre os problemas sociais e culturais que hoje são a triste realidade das ruas, da marginalidade.É facílimo ver um hippie (aqui onde moro tem alguns que levam suas famílias para trabalhar na praia) vendendo suas artes e torcer o nariz, ou ver moradores de rua e atravessar para outra calçada, ou se agarrar na bolsa quando um "mal-encarado" nos cruza o caminho!
E ae está a sorte das pessoas que cruzam o teu caminho! Elas tem a oportunidade de ser ajudadas. E essa ajuda vem como uma viandinha, ou como uma peça de roupa, ou simplesmente com um sorriso, uma palavra de carinho!
Facílimo falar que Deus está em tudo lembrando de belas paisagens, das montanhas, do mar ou da Angelina Jolie, mas vc faz o que a maioria de nós ignora e isso o faz difeerente sim!
Bela reflexão!

Igor de Fato disse...

Caro White, tu tens um dom precioso que é a capacidade de escrever o que tu viveu, as tuas impressões sobre a tua realidade.

Este é um testemunho do Brasil que queremos mudar.

Quem não se indigna com as pessoas morando na rua sem ter o que comer é porque está anestesiado na MATRIX.

Não é natural que tenha meninos, meninas, famílias na rua.

Isso tem que mudar, e pode mudar.

Quem milita pra mudar esse mundo injusto nunca pode perder de vista essa imagem.

Continue denunciando, anunciando, relatando.

É muito importante pra todos.

Nego BL disse...

Fala meu irmão saudades dos velhos tempos, mas sabemos que a resistência do Hip Hop está ai.Bom trabalho e continua nos Representando.
Nego BL Comando Preto

ackob disse...

DEUS.

brendon disse...

po mano da hora , as vezes a pessoas reclamam de barriga cheia , e não dão valor ao qe tem .
São poucas pessoas qe ajudam umas a outras , e graças a deus tem pessoas assim como vc , qe não pensa só em si.
Mais sim no proximo , mto legal mesmo mano .